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CesarFranco - MEMBRO EXCLUSIVO
#914204 Saudações, povo!

Nos meus estudos acabei topando com um artigo científico sobre a troca de presentes entre um homem e uma mulher. A socióloga, autora do artigo, demonstra como funciona a lógica masculina e feminina no dar presentes. Os resultados talvez não apontem nada muito novo para vocês, mas achei interessante por ser algo sustentado em termos acadêmicos.

Para os interessados, segue um síntese livre sem aquele formalismo dos estudos acadêmicos.

Os significados envolvidos num presenteO ato de dar presentes, por mais corriqueiro que pareça ser, é um ato de muitos significados. Em sociedades mais simples - aquelas que chamamos 'primitivas' - a troca de presentes pode resumir vários elementos da vida social, a começar pela própria relação entre o presenteador e o presenteado.

Já na nossa sociedade, pesquisas indicam que o ato de presentear é praticamente uma linguagem complexa, e para evitar deslizes nós precisamos ser competentes nessa linguagem. Quem nunca se pegou pensando nas sutilezas de dar um presente? Seja para natal, aniversário ou amigo secreto, não é algo simples.

Os bem aventurados nesta arte desenvolveram, talvez sem saber, aquela competência mencionada, e evitam assim os erros grosseiros - e evitam também aquele olhar desanimado de quando a outra pessoa abre o presente, e se esforça, por pura educação, para dizer que adorou...

Portanto, presentear alguém é estar lidando com diversos valores sociais internalizados, com expectativas implícitas de ambos os lados, e portanto, e correndo o risco de fazer isso da forma errada.


O que elas esperam de um presente?Bem, e o que isso pode dizer sobre como os homens presenteiam as mulheres?

A visão mais comum, mas que ainda existe entre nós, é de que um presente bom para a mulher é um presente caro. É o exemplo clássico do anel de brilhantes. Esta visão diz que quanto mais caro for o presente, mais satisfação irá proporcionar à mulher.

Só tem um problema nisso, que é quando consideramos o que as mulheres pensam.

Observando histórias e episódios de como os casais se presenteiam, e quais foram os presentes, digamos, bem-sucedidos, nota-se que as mulheres não priorizam necessariamente o valor monetário do presente.

Em uma dessas histórias, por exemplo, temos esse homem. Ele passou meses, praticamente um ano inteiro, anotando as queixas de sua mulher; quando ela reclamou estar sem lixa de unha, ele anotou; quando ela reclamou estar sem pilhas, anotou; o mesmo para a bucha para banho, para as meias, e tantas outras coisinhas. E quando chegou o Natal, ele pendurou todas essas pequenas coisas - baratas e simples, note-se - na árvore de natal. A mulher percebeu o que ele fizera (isto é, tinha dado todas as coisas que ela tinha precisado em algum momento) e adorou. Por via das dúvidas o homem deu também um belo anel, mas, nas palavras da mulher, o anel foi o de menos.

O que essa história demonstra é um padrão sobre o que as mulheres esperam de um presente masculino: trabalho e dedicação. Ou seja, o presente para a mulher ganha em importância e valor na medida em que expressa o esforço que o homem teve de realizar para dar/fazer aquele presente.

Quando o presente expressa o trabalho e a dedicação envolvidos, isso confere ares de singularidade ao presente. Isso faz o presente ser único, especial, inédito, e portanto um bom presente. Numa outra história, por exemplo, o homem deu à mulher um perfume, o mesmo perfume que ele já havia dado para a mãe... e justamente por ter sido o mesmo perfume é que a mulher detestou o presente.


Presentes X AmorVoltando ao início do texto, sobre como os presentes podem sintetizar elementos da vida social e podem significar coisas muito mais profundas do que aparenta, temos então uma comparação do ato de presentar com a concepção moderna de amor.

As mulheres gostam tanto de presentes únicos, singulares, presentes que envolvam trabalho e dedicação, porque isso é próximo do que nossa sociedade entende por amor. Para a maioria de nós, amor é um sentimento que une duas pessoas que se tornam, uma para a outra, únicas e insubstituíveis.

Logo, um presente que consegue fazer altura a essa noção existente em nossa sociedade, um presente que expresse a unicidade e singularidade(como se fosse um presente que nunca antes foi dado e nunca mais será dado de novo), é um ótimo presente. E por isso é que presentes caros não são, necessariamente, os melhores presentes.


PS: para os homens a coisa funciona de modo semelhante, apesar de que a autora do artigo não dedica muita atenção a eles.
PS2: isto é baseado em um estudo sério, com uma amostra de análise definida, e tem uma proposta teórica por fundo, então não é simples achismo; por outro lado, como todo estudo, também tem limitações inerentes e está longe de ser uma verdade universal.


Livre síntese do artigo Trocas materiais e construção de identidade de gênero, publicado no livro Identidades: recortes multi e interdisciplinares, escrito pela Doutora em Sociologia Maria Cláudia Coelho.

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